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Organizando o abandono das Big Techs e dos Big States

Versão 0.0.2 - 2026-03-22

Em concepção

Documentação em concepção.

Slides disponíveis

Versão para apresentação em slides disponível aqui.

Introdução

Este texto trata sobre como vazar das dos sistemas controlados por megacorporações através da autogestão de nossos próprios datacenters, infraestruturando nossa autonomia.

Discorre sobre como efetivamente abandonar as "Big Techs" -- e por quê não, também, no futuro, os "Big States"? --, dependendo cada vez menos dos seus sistemas anti-sociais ao usar, apoiar e contribuir com iniciativas autogestionadas de infraestruturas computacionais.

O conteúdo está inserido numa perspectiva histórica do que já foi tentado, o que deu certo, o que não deu certo, o que vale tentar e o que é bom evitar.

Não se trata aqui de um texto completo, abarcando tudo o que é importante e prioritário, nem que resolva todas as questões. É mais um apanhado geral que talvez possa contribuir com esta longa caminhada.

Muito do que é dito aqui se aplica também a outras atividades autogeridas, não somente a "data centers" e "servidores".

Histórico

Viradas históricas recentes:

  • Década de 2000: ascenção das Big Techs, um conjunto de corporações (e por que não incluir "startups") centralizadoras de tecnologia computacional digital.

  • Década de 2010: Big Techs dentro da onda democrática mundial, parasitando as primaveras árabe, espanhola, brasileira, estado-unidense etc, tendo em vista a expansão dos seus mercados.

    • 2013: Snowden: confirmação da espionagem generalizada.
    • 2016: Trump parte I: Cambridge Analytica icônica da virada porvir: algoritmos da extremização.
    • 2018: Bozólise Brasileira: a ascenção e consolidação dos "gabinetes do ódio", que não funcionam sem Big Tech.
  • Década de 2020:

    • Impulsionadas pela pandemia de Covid-19, aprofunda-se a dependência da sociedade nas Big Techs, que desde alguns anos antes lucram com seu poderio editorial, via "algoritmos", promovendo a extremização social e a ascenção da extrema direita.
    • Fim do flerte com a democracia: agora se parece com um novo tipo/fase de acumulação primitiva de materiais e energia.
    • A porcaria enlatada como "Inteligência Artificial" é usada como justificativa para passar por cima de qualquer problema social e ambiental, pelo falacioso argumento que ela será capaz de resolver todos eles, ao mesmo tempo em que os aprofundam!
    • Estamos em 2026, e parece que emborcou tudo!

O quê, por quê, como?

O quê?

O desafio: fazer com que manter "datacenters", "servidores" e "serviços" seja cada vez mais fácil, para que essa prática se difunda e seja mais comum.

Mas sem cair na lógica da servidão e da centralização...

Tem gente que vai defender datacenter soberano, "nuvem" pública ou do governo etc.

Esta nossa conversa terá outro enfoque: soluções comunitárias de baixa escala, mas que podem ser difundidas, fazer volume e assim ganhar escala, organicamente. No espírito dos chamados Coletivos Técnicos Radicais (ou RTC's).

Por quê?

  • Big Techs são grandes doenças planetárias que se apresentam, na aparência, como sistemas de computação para organizar a informação do mundo e conectar as pessoas.

  • Assim como quem não tem plano acaba nos planos de alguém, quem não se organiza acaba tendo sua organização definida por terceiros.

  • A agenda das Big Techs não é a nossa agenda, muito pelo contrário. Elas concentram poder econômico demais, e agora surfam no poder político, tendo suas operações comparáveis a grandes países.

  • Paralelo com uma ficção científica conhecida...

Como?

  • Está cada dia mais fácil, por outro lado a cada dia os grandes monopólios e os governos fazem esse trabalho mais difícil...

  • Mas agora vamos ficar um tempo sem pensar nas Big Techs para focar naquilo que podemos fazer.

Fácil ou difícil?

  • Vai ser tão difícil ou trabalhoso quanto ficar na mão de pouca gente...

    • A partir de agora, não trataremos de heróis, personalidades, "influenciadores", ídolos, líderes, hackers ou "gênios" da computação:

      • É bom ter referências, mas igualmente importante tomar cuidado para não se tornarem ideais impossíveis e neutralizadores.
    • A ênfase aqui será no trabalho coletivo dedicado e organizado, cujos frutos são compartidos coletivamente.

    • Dá bastante trabalho... se souberem de uma maneira menos trabalhosa, me avisem :)

Sugestão

  • Desinvestir tempo gasto nas "plataformas" das Big Techs, redistribuindo/redirecionando para tanto usar quanto colaborar com alternativas livres.

  • Misturar tanto trabalho financeiramente remunerado quanto não remunerado.

    • Remuneração (bolsas de estudo/estágio, salário etc) para aumentar a participação.
    • Num mundo perfeito, seria possível usar apenas trabalho voluntário, mas nas condições atuais é importante pensar também na sustentação e liberação de pessoas, para que possam se dedicar mais.

Reterritorialização

  • Criar e participar de coletivos locais de infraestrutura, para que seja possível realizar encontros regulares.

  • Buscar centros sociais existentes que possam abrigar um datacenter e se beneficiar co isso.

  • Exemplo:

    • Mutirões e oficinas aos finais de semana, ou uma festa da pizza às sextas-feiras etc). Caso notável: Raul Hacker Clube (Salvador).
    • Durante a semana, a organização e a comunicação usando as próprias redes.

Redução de danos

  • Estratégias da redução de danos e da terapia coletiva ao redor de um datacenter:

    • Atitudes mais radicais, como largar as ferramentas tecnotóxicas logo de cara, podem ser mais difíceis de sustentar, levando a síndromes de abstinência ou outros efeitos da dependência prolongada; também torna difícil a vida prática de contatar pessoas que ainda não deixaram de usá-las.

    • Indo aos poucos, mantendo uma espécie de "vida dupla" temporária, por mais que tenha um custo cognitivo adicional, permite que a nova vida digital seja construída enquanto a anterior vai sendo esvaziada.

    • Fazer isso junto com outras pessoas não garante apenas que haja com quem interagir no mundo novo, como estabelece um reforço coletivo de apoio mútuo.

    • Como naquele antigo provérbio no espírito de várias culturas, por exemplo em África, "se quiser ir rápido, vá só; mas se quiser ir longe, vá junto"1.

Topologias

  • A famosa imagem do estudo de Paul Baran2:

Topologias de rede

  • 2012: "Redes eventualmente conectadas" (Baobáxia):
  • "Fazer do nosso jeito".
  • Mistura de redes de dados com pessoas viajando entre as comunidades.
  • Os enlaces de longa distância são reforçados por laços presenciais.
  • Isso é um retorno ao que Walter Benjamin, em seu ensaio crítico sobre informação3, diz sobre viajantes e contadoras de histórias.

  • Redes híbridas: parte descentralizadas, parte distribuídas.

Federação

  • Descentralizar ou distribuir implica em algum tipo de coordenação entre os pontos da rede, por exemplo do tipo federado.

  • A coordenação pragmática é obtida pelo uso de protocolos, prevendo modos de operação e compartilhamento.

  • Por sobre esses protocolos, ocorre a comunicação nem sempre prevista por protocolos.

  • A política está em todas essas camadas...

Verticalidade e horizontalidade nodal

Duas maneiras de operar um "nó" ou uma seção da rede:

  • Horizontalmente: o coletivo só vai cuidar de uma ou algumas "camadas" da infraestrutura, fazendo parcerias com outros coletivos que operem as outras camadas, ou mesmo terceirizando algumas camadas para empresas...
  • Verticalmente: o coletivo cuida do máximo número possível de camadas, desde o espaço do datacenter até o suporte técnico e todo o resto.
  • Verticalidade e horizontalidade entendidas aqui na divisão de trabalho, não na tomada de decisões (hierarquia)
  • Verticalidade envolve mais autonomia local, porém mais trabalho para uma equipe.
  • Horizontalidade implica em mais dependência entre coletivos, porém alivia o trabalho de uma equipe, além de ter benefícios de ganho de escala (equipes focadas e especializadas).
  • Não há muito certo e errado nisso...

Perigos!

Há uma série de perigos que precisamos considerar antes de começar.

Assim conseguimos, se não evitá-los, ao menos mitigá-los.

Entre uma geladeira e uma UTI

  • Primeiro perigo: a infra não pode ser excessivamente trabalhosa para manter.

  • Mas ela dificilmente será tão simples quanto operar uma geladeira.

  • Não é algo para ligar e esquecer que existe. Mas não pode ser algo que não paramos de pensar, que tira nosso sono, que nos impede de fazer outras coisas.

  • Essa analogia não considera os ataques à infraestrutura em vários níveis e escalas (ninguém usualmente ataca a geladeira dos outros ou tenta dificultar a operação de uma UTI, etc).

  • Hoje, o trabalho técnico de manter datacenters é semelhante ao de cuidador(a), sempre monitorando e intervindo quando algo não está bem4.

  • A aparente praticidade da computação pessoal, com laptops, smartphones, roteadores wireless e até totens de espionagem como o "Amazon Alexa" escondem um trabalho técnico intenso que ocorre por trás, e uma cadeia de produção sinistra. Exemplo: Anatomy of an AI System.

  • O desafio é ter computação comunitária de baixa intensidade, baixo impacto e alta relevância.

  • Um pouco mais como uma geladeira, muito menos do que uma UTI, sobretudo gerido coletivamente, para não sobrecarregar nem invisibilizar ninguém.

  • Ainda não chegamos lá, mas pode ser um caminho frutífero!

A Extinção dos Orelhões

  • Segundo perigo: a obsolescência.

  • Acontece principalmente quando uma tecnologia pública fica sob controle estatal e/ou empresarial.

  • Orelhão:

    • Símbolo da comunicação pública e inclusiva, ainda que controlado por empresas estatais ou privadas.
  • Orelhão 2.0: seria possível ter um sistema público do tipo Minitel:

    • A casca do orelhão com um laptop conectado, ao invés do desastre que é forçar cada pessoa a andar sempre com um mini-computador espião consigo.
    • Não seria um sistema totalmente seguro de ponta a ponta, mas poderia ter suporte a tokens criptográficos e outras funcionalidades hoje já disponíveis.

Projeto original do orelhão

Os dilemas da equipe técnica

  • Terceiro perigo: esgotamento.

  • Administração de sistemas é muito complicada, não exatamente por uma complexidade intrínseca da atividade, mas por ser tendencialmente frustrante: quando tudo está funcionando, ninguém se lembra do esforço da equipe administrativa; basta que algo saia do ar por alguns minutos para que todo mundo cobre a equipe o motivo e peça uma resposta rápida.

  • A equipe técnica corre o risco de ser excluída da política. sobrecarregada e relegada apenas a cuidar da infraestrutura. Melhor seria se não houvesse essa diferenciação de cargos "técnicos" e "políticos", especialmente havendo rodízio nos cargos e atribuições, compartilhando a chance de aprendizado e exercício.

  • A equipe técnica pode acabar excluindo a política da técnica. É muito comum que esse trabalho infelizmente acabe centralizado em pouca gente, que de tão cansada não tem paciência de decidir e explicar tudo com outras pessoas.

  • Cuidado então para não haver uma exclusão política de ambos os lados (se é que é pra ter lado e esse tipo de diferenciação...).

  • Riscos de esgotamento ("burnout") pela da sobrecarga, alienação, necessidade de atualização constante, preocupação com segurança e privacidade para além do normal, não dar conta de tudo e ainda ter que lidar, muitas vezes, com assédios e outras (o)pressões.

Os dilemas do federalismo

  • O quarto perigo está na gestão comum das redes.

  • A Tragédia do Comum:

  • Esforços coletivos para manter uma rede em funcionamento saudável são minados pelo parasitismo, boicote ou sabotagem, especialmente sob a égide do individualismo e do ultra-hiper-mega-blaster-liberalismo da Legião da Má Vontade ("cada um com seus problemas").

  • O Dilema das Atualizações: dificuldade de tomar decisões propagar atualizações dos protocolos entre redes autônomas, dificultando a "inovação", ou dinfundí-las a partir e um único centro autoritativo, rompendo com a participação externa:

    • Texto (lamentável) do Moxie a respeito (2016): Signal >> Blog >> Reflections: The ecosystem is moving
    • Projeto Tor tem um sucesso relativamente bom nesse sentido:

      • Opera de maneira centralizada-distribuída e com algoritmos de consenso de rede.
      • De trabalhar conjuntamente com sua comunidade para garantir que a rede se atualize.
    • IETF (Internet Engineering Task Force) assim como outros órgãos conseguem viabilizar decisões, porém estão infestados pelas corporações e seus interesses.

Colonialismo pré-instalado

  • Quinto perigo: o colonialismo pré-fabricado e o desafio para a descolonização técnica.

  • "As ferramentas dos mestres jamais desmantelarão a casa do mestre"5:

For the masters tools will never dismantle the masters house. They may allow us temporarily to beat him at his own game, but they will never enable us to bring about genuine change. And this fact is only threatening to those women who still define the master's house as their only source of support.

  • Mas as ferramentas que estamos usando e criando neste momento (e das quais dependemos) tem por base as ferramentas dos mestres...

  • Como comenta Cory Doctorou a respeito da internet6,

Audre Lorde was far smarter than I am about nearly everything, but when she wrote “The master’s tools will never dismantle the master’s house,” she was manifestly wrong. The master’s tools were used to build that house in the first place -- that makes them the ideal tools to take it to bits and rebuild it to shelter us.

  • Mesmo com a crítica afiada, corremos o risco todos os dias de usar tecnologias com pressupostos colonialistas, que podem acabar contidas até nos softwares livres.

Monocultura versus sustentabilidade

  • Tendência de consolidação de alguns sistemas, protocolos, práticas etc em detrimento de outros.

  • A redução da diversidade de uso de softwares e outras práticas culturais não é boa, não só por estreitar pensamentos e atitudes, mas inclusive em termos de segurança.

  • Por outro lado, a escassez de recursos para manutenção acaba fazendo com que muitas comunidades de software acabem migrando para poucos sistemas.

  • Debate que segue em aberto.

O que deu (mais ou menos) certo

O que deu certo

A seguir, um lista incompleta do que sabemos ter dado certo.

Copyleft, software livre, colaboração

  • Copyleft no geral.

  • Software livre no específico.

  • Quatro liberdades do software livre.

  • Essas quatro liberdades são condições necessários, mas não suficientes:

    • Podemos ter a liberdade para a estudar e modificar, mas teremos tempo para isso? E o tempo prévio de aprendizado necessário para ler um software?

    • As licenças de software não incluem garantias de manutenção extendida, suporte ou estabilidade dos programas. Tudo pode mudar a qualquer momento, inclusive o software pode ser abandonado.

  • Ainda que ele tenha essas limitações, o software livre continua sendo muito melhor do que o proprietário.

  • Redes efetivamente sociais (chat, fóruns, blogs, listas de e-mail -- sim, listas de e-mail!).

  • Códigos de Conduta / netiqueta e posturas éticas: ajudando as comunidades a manter ambientes inclusivos e agradáveis, dentro da lógica do auto-governo.

  • Faça por conta própria / faça você mesmo: o espírito que move as comunidades.

Iniciativas persistentes

  • Algumas das iniciativas que persistem, ou que até cresceram.

  • Na ponta autônoma do espectro:

    • Riseup!
      • A migração para o Riseup é um excelente estudo de caso!
      • Ocorreu de maneira orgância, dentro dos próprios movimentos.
      • Os motivos políticos e de segurança falaram mais alto do que diferenças de "qualidade" e disponibilidade do serviço.
    • CryptoRave!
    • Muitas outras!
  • Terceiro setor:

    • Tor!
    • Internet Archive!
    • Wikipedia!
    • Muitas outras!
  • Autodefesa Digital.

Avizinhamento

  • Avizinhamento: trazer a comunidade de uso para perto. Exemplos:

    • Vizinhança do Saravá.
    • Sindominio: grupo técnico e uma assembléia geral.
    • Mayfirst: sistema de membresia.
  • Operação social distribuída: divisão de trabalho não é necessariamente ruim, havendo alguns pré-requisitos para evitar assimetrias sociais: isonomia informacional, alternância de papéis.

  • Avizinhamento seria mais ou menos o que é o aquilombamento?

Segmentação

  • Máquinas Virtuais permitem dividir o trabalho entre diversos coletivos (aumento da horizontalidade nodal):

    • Exemplo:
      • Um grupo administra o servidor/mucua, o data center e os backups.
      • Outros grupos administram serviços que rodam nas máquinas virtuais.
  • Contêiners facilitam muito a instalação e manutenção de serviços.

  • Sugestão: contêiners dentro de máquinas virtuais.

O que deu mais ou menos certo

Memória

  • Bom, estamos aqui contando essa história!

  • Mas existe o "decaimento da web": um monte de conteúdo some.

  • Por sorte, existem projetos como o Internet Archive e o ArchiveTeam, e também arquivamos nossas próprias coisas sempre que podemos e lembramos!

  • Fica o convite para você participar dessa empreitada!

  • Apresentação sobre apagões de dados na internet está disponível.

  • Também falaram sobre isso na CryptoRave de 2025: Apagamento Digital: Perda da Memória Web Brasileira.

Seleção de projetos

  • Exercício: procurar no WayBack Machine: radiolivre.org, sarava.org, birosca.org etc.

  • Hydra: Processo e Suite:

    • Sistema auto-replicável de baixa escala, cada nó sendo capaz de reproduzir toda a topologia.
    • Sistema: hardware + software + configuração + dados.
    • Slides.
  • Padrão Saravá / Padrão Fluxo: padronização e documentação.

  • Protocolos Sociotécnicos:

    • Sistematizados a partir de experiências práticas.
  • Falar um pouco da experiência do Saravá, dentro das perspectivas disponíveis.

  • A partir desse histórico, indicar o que deu e não deu certo em algumas dessas iniciativas, assim como no geral.

O que não deu certo

Apropriação energética e simbólica

Precisamos fazer essa (auto-)crítica, por mais desagradável que seja:

  • Captura das redes de produção culturais (vídeo, música, software etc).
  • Extração do conteúdo coletivo.
  • Software livre turbinando novas formas de dominação :(

Resumidamente, o que fazíamos e fazemos na prática dá tão certo que o capitalismo se apropria de uma maneira perversa, quase que invabilizando o que fazemos e o que queremos mudar... mas esta é outra discussão, talvez a discussão de fundo, que em parte está documentada nos textos do Saravá7.

Fuga de talento

  • Muita gente passou por processos de formação, aprendeu muito mas acabou indo trabalhar no mercado.

  • Foi muito importante essa capacitação na vida profissional das pessoas.

  • No entanto, acabou ocorrendo uma transferência de conhecimento dos movimentos sociais para o mercado, sem devolutiva.

  • Importante pensar em maneiras de tanto apoiar a formação profissional quanto ter alguma devolutiva, seja cada pessoa passando o conhecimento adiante para as próximas que estão vindo (transição geracional), quanto contribuir com mais tempo nos projetos (reinvestindo força de trabalho), ou até mesmo de outras maneiras (aportes financeiros, contatos etc).

O que talvez não queiramos mais fazer...

  • O que não deu certo, ou o que talvez não queiramos mais fazer.

  • Máquinas, data centers etc sem inserção ou preocupação com território, e/ou descoladas da comunidade.

  • Deixar as coisas nas mãos de poucas pessoas, especialmente se elas não forem muito transparentes.

  • Deixar com que os grupos que administram as máquinas virtuais cuidem dos seus próprios backups. Isso pode acontecer, mas não é garantido. O melhor é o grupo que administra a máquina física e o data center cuidar dos backups.

O que deu certo, mais que depois foi dando errado...

  • O mundo varre muitas iniciativas do mapa...

  • Centro de Mídia Idependente (CMI/Indymedia): deu certo, mas depois foi dando errado...

    • Deu certo:
    • Organização em rede, com cada "centro" possuindo sua própria autonomia.

    • Deu errado:

    • "Democratismo" versus democracia direta?

    • Crescimento muito rápido, sem o proporcional crescimento em organização.

      • Vide tese de Swann8 sobre cibernética anarquista.
    • Movimento altermundista foi massacrado pela Guerra ao Terror da Era Bush Jr.

    • CMI Brasil foi engolido pelo lixo da extrema direita.

    • O CMI ainda existe, mas sem o mesmo ímpeto.

    • Quase ninguém hoje sabe o que foi o CMI/Indymedia, e sua importância.

    • Algo como o CMI ainda tem sua relevância...

O que continuar fazendo

Inclusão

  • Estamos falando de um outro tipo de inclusão digital/comunicacional/computacional.

  • Aumentar a inclusão de pessoas, de todas as origens, caminhadas, orientações etc, especialmente aquelas minorizadas e marginalizadas. Isso tem avançado bastante, porém ainda é muito suficiente.

  • Criação de espaços seguros, inclusivos, aconchegantes.

  • DEI/DEIB: Diversidade, Equidade, Inclusão e Pertencimento.

Documentação

  • Codificação de textos, configurações, scripts etc (texto também é código):
  • Documentar tanto procedimentos técnicos quanto decisões políticas.

  • Ter uma boa separação do que é público e privado.

  • Esquema de "diário de bordo":

    • Linha do tempo estilo "registro de mudanças" ("change log") geral e por assunto/tema/contexto/sistema.
  • Ter documentação offline distribuída (repósitório Git).

    • Git e sites estáticos (especialmente para documentações): são ótimos para disponibilidade e preservação.

    • Você não quer que a documentação sobre como consertar aquele computador quebrado esteja somente dentro dele...

Processos

  • Governança... ou governética! A importância dos processos de decisão e realização horizontais e diretos.

  • Decidir é difícil, mas ainda mais fácil que realizar.

  • Consenso por silêncio não é bom, isto é, propostas que são aprovadas sem que ninguém se manifeste. Melhor que propostas sem aprovadas apenas havendo manifestação explícita e favorável.

  • Cuidado tanto com a empolgação do sim quanto com o silêncio dos constrangimentos.

  • Usar algum sistema de gestão de processos/tarefas!

    • Pode ser um sistema de tickets.
    • Podem ser listas de tarefas contextuais!

Segurança

  • Não menosprezar a segurança, mas tomar cuidado para não adotar protocolos difíceis e que não serão seguidos. Exemplos:
  • Preparação para desastres de todo o tipo: "o que fazer em caso de incêndio?".

  • Proteção não significa vigilância: não é necessário registrar IPs e dados pessoais/identificáveis para manter um bom funcionamento; no caso de organizações sem fins lucrativos, não é obrigatória a retenção de IPs pela legislação brasileira (Marco Civil da Internet).

  • Compartilhamento de senhas de maneira suficientemente segura.

  • Criptografar o máximo possível (dados e conexões), tomando cuidado para não se trancar do lado de fora!

  • Guia geral (com vídeos): https://guia.autodefesa.org.

Continuar fazendo: privacidade por design e operação

  • Marco Civil da Internet:
  • Não exige que "provedores" sem fins lucrativos registrem endereços IP dos acessos.

  • LGPD: dá pra ser melhor do que essa lei, especialmente:

  • Não retendo informações pessoais mais do que o estritamente necessário.

  • Não usando "cookies" e outros mecanismos de etiquetagem de "clientes".

  • ECA Digital:

  • Apesar de buscar enfrentar sérios problemas existentes, gera insegurança jurídica e cavalo e tróia que pode dificultar a privacidade e a operação em pequena escala.

  • Certamente beneficia as Big Techs e o Big State enquanto provedores de identificação.

  • Dúvidas sobre qual o impacto efetivo em datacenters e redes federadas.

  • Uma maneira de ter checagem de idade em sistemas de pequena escala é conhecer pessoalmente a base de usuários ao criar a conta...

Tolerância a falhas

  • Backups! Não só fazer backups, mas testá-los e saber como recuperar serviços a partir deles.

  • Preparação para falhas, defeitos, quebras. A questão não é de se, mas de quando.

O que tentar

Tentar gostar!

É mais fácil quando a gente gosta do que faz:

  • Se fazemos algo somente porque é necessário, há a possibilidade disso ser mais penoso.
  • Se pegamos gosto pela coisa, se passamos a nos interessar pelo assunto, aí a atividade fica mais prazerosa.

Dá pra fazer de maneira agradável e comunitária:

Divisão do trabalho

  • Sessões de trabalho coletivas e mais ou menos regulares, incluindo um calendário de manutenção.

  • Alternar papéis, garantindo que todo mundo tenha a oportunidade de aprender e exercer seus conhecimentos. Isso aumenta a redundância e a resiliência da iniciativa.

Festas de instalação

Install Fest de sistemas operacionais livres (no telefone e laptop/desktop):

  • Tem gente experiente que pode apoiar nisso.

  • É possível ter "dual boot" no computador.

  • Com preparo e planejamento, dá até pra fazer no celular Android!

Manutenção preventiva

  • "Prevenir é melhor do que remediar".

  • Trocar peças e fazer manutenção antes que os equipamentos quebrem.

  • Especialmente no caso de baterias de nobreak/UPS.

  • Planilha de reposições ajuda, junto com um mutirão semestral ou anual de limpeza e manutenção.

  • Checklists (listas de checagem), inclusive em rotinas periódicas.

  • Monitorar o uso dos recursos e a situação dos equipamentos.

  • Pode ser feito em clima de festa:

    • Exemplo da Macarronada do Daileon (2002?).

Simplexidade e suficiência

Avaliações de saúde

  • Importantíssimo: avaliar a "saúde" de projetos de software:

    • "Bus factor".
    • Ingerências do mercado.
    • Algumas lições aprendidas:
    • Lorea.
    • Drupal.
    • Linux-VServer.
  • Cuidado com a sustententabilidade dos próprios projetos e códigos!

Ferramentaria

  • Uso do Git tanto para documentação quanto para código:

    • Existem outras alternativas, mais de nicho, como o fossil (mas aí entra na questão monocultura versus sustentabilidade).
  • Tor, incluindo a tecnologia de Serviços Cebola!

  • Automação:

    • Scripts ou sistemas como Ansible: avaliar necessidade, pois a curva de aprendizado é grande e requer de manutenção/atualização.

Formatos

  • Formatos e microformatos abertos são seus amigos!

  • Exemplos:

    • ODF/FODF.
    • CSV.
    • Markdown.
    • RSS, Atom e OPML, que ainda sobrevivem!

Preservação

  • Dica: arquivar sites e sistemas legados em HTML!

  • Ecologia de domínios, reaproveitando um mesmo domínio para diversos usos.

  • Endereços persistentes (ou até permanentes): links bacanas não mudam! Cool URIs don't change.

Plataformas abertas

  • Hardware:

    • Pesquisar se um dado hardware funciona bem com software livre.
    • Pesquisar quanto tempo aquele hardware será suportado (garantia, obsolescência...).
    • Instalar software livre assim que possível (evitar lock-ins futuros).
    • Dar preferência para hardware livre e aberto.
  • Software:

  • Wetware:

  • Colaboração entre iniciativas similares: troca de recursos, backups etc, não só no Brasil.
  • Protocolos.

  • Netware:

    • DWeb, P2P, redes mesh, sistemas off-the-grid, bases de dados e acervos offline etc.

O que não tentar

O que não tentar, ou o que talvez não valha tentar:

  • Sistemas operacionais e softwares com comunidades instáveis.

    • Vale uma avaliação cuidadosa da saúde de uma comunidade, assim como suas perspectivas futuras.
  • Querer sempre rodar a coisa mais nova. Não acreditem no hype!

O que está mais fácil

Algumas coisas hoje estão mais fáceis:

  • Manter "servidores"/mucuas e datacenters, antigamente, era uma ação apolítica de franja, era algo considerado mais pela esquerda radical...

  • Equipamento está muito mais fácil de conseguir.

  • Muito hardware de segunda mão.
    • Apesar de que o fenômeno "IA" pode tornar as coisas bem difíceis para a computação de baixa escala, por conta da escassez de RAM e armazenamento.
  • Muito hardware aberto.

  • Muito mais software e documentação disponíveis.

  • Redes mesh ficando cada vez mais acessíveis!

O que continua difícil

O trabalho em si

  • Automatização e processos ajudaram muito, mas ainda é trabalhoso.

  • Manter a organização e a documentação.

Colonialidade

  • Muita colonialidade nas tecnologias e nas linguagens:

    • Língua inglesa ainda é uma barreira.
    • Exemplos de discussões sobre terminologia, por exemplo no caso do Git, termos "mestre" e "escravo" etc.
    • Problemas tanto mais explícitos quanto aqueles que estão insinuados nas arquituras. Discussão sobre hierarquia de pastas e patriarcado por exemplo.
  • Será que só vão lembrar de vocês quando o sistema sair do ar? Nem sempre vem o elogio e o reconhecimento. Risco do trabalho ativista precário.

Repressão

  • Repressão:
    • O Fator Quilombos/Canudos: comunidades livres ameaçam a ordem vigente, especialmente quando crescem e atraem grandes contingentes.
    • Casos.
    • Cavaleiros do Infoapocalipse (terrorismo, crime organizado, predadrófilos, nazis etc): usados como justificativa para adoção de medidas restritivas.

O que está mais difícil

Dependência

  • Aumento da dependência em Big Techs.

  • "Smart" phones

  • Hoje em dia existe um treco chamado "telefone celular". Ele é um desastre.

Problema da ação coletiva

  • O problema da ação coletiva para abandonar as Big Techs.

    • Antes não era um problema tão grande, já que essas Big Techs não existiam.

    • Como criar momento coletivo para abandonar plataformas?

    • Exemplo do abandono do Twitter para o Feediverso e o Bluesky.

    • A ação coletiva é um grande problema, mas é mais fácil de enfrentá-lo pensando em migrações orgâncias a partir de círculos concêntricos.

    • O problema da ação coletiva não é individual, é coletivo; mas precisa de um esforço de migração para cada pessoa, amigue, familiar, colega etc.

  • Por outro lado, a ação coletiva é o que mais assusta as Big Techs... é o que mais assusta o poder em geral. Fazem de tudo para evitá-la.

Aumento da concentração

  • O certo está se fechando, e o oligopólio agradece!

Aumento da vigilância

  • As "Inteligências Artificiais" estão poluindo a internet com lixo ("AI slop").

  • Verificação mandatória na internet em geral, infraestrutura pronta para autoritarismos e aumento de vigilância em troca de segurança questionável: https://www.eff.org/issues/age-verification

  • O Android está para se tornar uma plataforma ainda mais fechada a partir de Setembro de 2026: https://keepandroidopen.org/pt-BR/

  • Interações cada vez mais vigiadas por terceiros.

  • Inclusive em sistemas popularizados, como o PIX, operando no sentido da extinção da moeda em espécie.

Poluição

  • A internet hoje está muito mais agressiva:

    • Difícil lidar com a agressividade do SPAM, dos crawlers e outros comportamentos nocivos da internet anti-internet:

      • Scrappers, SPAMMers, trolls, hoaxers, scammers, crackers, haters...
    • Violência simbólica, violência algorítmica, violência da interface...

    • Fake news.

  • Requer mais:

    • Moderação.

    • Confirmação.

    • Corrida atrás do prejuízo.

Aceleração, obsolescência, perrengues

Muitos desafios: a obsolescência programada, atualizações constantes, a vigilância e o autoritarismo das imposições tecnológicas...

  • Alijamento:

    • Taxas de obsolescência e aceleração difíceis de enfrentar.

    • A internet hoje é muito mais monopolizada.

    • "Merdificação" das "plataformas"10.

  • Perrengues:

    • Maior precarização da vida.

    • Falta de tempo, esgotamento etc.

    • Desorganização é uma opressão estrutural.

  • Limitações operacionais:

    • Espaço de endereçamento:
      • Exaustão do IPv4.
      • IPv6 ainda não muito adotado, considerações de privacidade.
    • Espaço de nomes: DNS cada vez mais sendo um fator de controle.

O que evitar

Evite os evitáveis que der pra evitar!

Exemplos:

  • Usar Desinteligência Artificial, vulgo "Inteligência" "Artificial"!!!

  • Software proprietário.

  • GitHub e afins.

  • "Web3".

  • Criptomoedas, com algumas exceções de uso tático-estratégico.

Notas e referências


  1. Discussões sobre a oriem do provérbio "se quiser ir rápido, vá só; mas se quiser ir longe, vá junto": Who first said: if you want to go fast, go alone; if you want to go far, go together? | Andrew Whitby; phrase origin - Where does this proverb come from? “If you want to go fast, go alone, if you want to go far, go together” - English Language & Usage Stack Exchange; Were The African Proverbs Mentioned At The DNC Really African Proverbs? : Goats and Soda : NPR

  2. Baran, P. (1962). On distributed communications networks. RAND Corporation. https://doi.org/10.7249/P2626, pág. 4. 

  3. Benjamin, W. (2007). Illuminations. Schocken Books. Cap. "The Storyteller", comentado em Rhatto, S. (2025). A triste história da informação: A nova bomba atômica e o lixo da indigência artificial (Vol. 4). Publicações Vertiginosas. https://informacao.fluxo.info

  4. Vide Monserrate, S. G. (2022). The cloud is material: On the environmental impacts of computation and data storage. MIT Case Studies in Social and Ethical Responsibilities of Computing. https://doi.org/10.21428/2c646de5.031d4553, seção "The Cloud is Cultural", sobre os "caretakers" de datacenters. 

  5. Lorde, A. (1984). Sister outsider: Essays and speeches. The Crossing Press. e Lorde, A. (2007). Sister outsider: Essays and speeches. The Crossing Press., pág. 112. 

  6. Doctorow, C. (2025). Enshittification: Why everything suddenly got worse and what to do about it. MCD. https://us.macmillan.com/books/9780374619329/enshittification/ -- Cap. "Conclusion: Is Enshittification Just Capitalism". 

  7. Saravá, G., Caminati, C., Diniz, R., & Rhatto, S. (2025). Saraventos: Vols. -1 (S. Rhatto, Ed.). Publicações Vertiginosas. https://saraventos.fluxo.info

  8. Swann, T. (2020). Anarchist cybernetics: Control and communication in radical politics. Bristol University Press.. 

  9. Saravá, G., Caminati, C., Diniz, R., & Rhatto, S. (2025). Saraventos: Vols. -1 (S. Rhatto, Ed.). Publicações Vertiginosas. https://saraventos.fluxo.info-protocolo 

  10. Doctorow, C. (2025). Enshittification: Why everything suddenly got worse and what to do about it. MCD. https://us.macmillan.com/books/9780374619329/enshittification/